Problemas frequentes alertam
para cuidados sobre piercing
O sonho de Ana Cláudia era antigo.
Desde os dez anos de idade, a menina - que mora em Brasília - queria colocar
um piercing na orelha. A mãe foi contra, mas acabou cedendo às pressões da
filha. No entanto, após a implantação do acessório, o resultado não foi o
esperado. Inchaço, sangue, pus, dor e inflamação levaram Ana Claúdia para
uma sala de cirurgia. Mais de um mês de tratamento a base de antibióticos,
ela ainda espera pela avaliação médica, que pode indicar a necessidade de
uma cirurgia corretora na orelha, devido à perda de cartilagem.
Quem fez a operação em Ana Cláudia
foi o cirurgião plástico Tobias Camargo. O médico e sua equipe atenderam na
emergência do Hospital Prontonorte cinco casos de complicações com piercings
desde novembro de 2005. Em todos foi necessária uma intervenção cirúrgica.
“A maioria dos pacientes são jovens que acabam ficando com pequenas deformidades
em função da colocação das jóias”, conta.
Para o cirurgião plástico do Prontonorte,
a colocação de um piercing tem que ser encarada como uma pequena cirurgia.
“Os materiais e inclusive a jóia tem que estar esterilizados. Um agravamento
de um quadro inflamatório pode levar à destruição da cartilagem. Tem paciente
que fica com orelha igual a de lutador de jiu-jitsu. E o pavilhão auricular
é um local especialmente complicado de se reconstituir”, analisa.
Segundo ele, mesmo uma cirurgia
de grande porte em um hospital seguindo todas as normas médicas tem um risco
de 2% a 5% de gerar uma infecção. “Pelo número de pacientes que tenho atendido
e relatos de colegas, há alguém com a ‘mão suja’ fazendo piercing por aí”,
brinca.
Fiscalização
A profissão de tatuador e piercer
ainda não é regulamentada. De acordo com a Vigilância Sanitária do DF, responsável
pela fiscalização, ainda não existe legislação nacional e local que disciplinem
os parâmetros para a inspeção desse tipo de estabelecimento. “Avaliamos esses
locais da mesma maneira como fiscalizamos um salão de beleza”, admite a gerente
de fiscalização da Vigilância Sanitária do DF, Maria das Graças Ferreira.
Segundo ela, os fiscais avaliam
se a loja tem alvará de funcionamento e se o local de colocação das jóias
é reservado, bem ventilado e de fácil limpeza. Bisturis, agulhas e seringas
devem ser descartáveis e após o uso, devem ser identificados como resíduo
de serviço de saúde. Os profissionais que estiverem realizando as perfurações
devem usar equipamentos de proteção individual como luvas, óculos e avental.
Os materiais que são reutilizados,
como cubas e pinças, devem ser limpos com material detergente, que tem que
estar dentro do prazo de validade e possuir registro na Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa). Depois de limpos, os instrumentos devem ser
submetidos ao calor por meio da auto clave. Quem não possuir o equipamento
deve ter contrato com empresa que forneça o serviço.
Os profissionais do piercing
e da tatuagem não estão autorizados a receitar medicamentos ou efetuar procedimentos
cirúrgicos corretivos em tatuagens ou piercings problemáticos. Em caso de
incorrer em algum desses procedimentos, o piercer pode ser autuado por exercício
ilegal da Medicina.
De acordo com a gerente da Vigilância,
faltam fiscais para uma inspeção mais adequada das lojas de piercing e tatuagem.
“Fazemos a fiscalização nesses locais pelo menos uma vez por ano ou quando
há reclamação. Mas estamos sem contratação desde 1993 e temos uma carência
enorme de pessoal”, diz. Ela afirma que as lojas de piercing e tatuagem são
preteridas entre a fiscalização à hospitais, farmácias e feiras. Outra
dificuldade apontada pela gerente é a clandestinidade de muitos dos profissionais
da área, o que dificulta ainda mais a fiscalização.
Saiba também sobre a remoção
de tatuagens.
Fonte:
Correio Web - DF (18/01/2006).
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