O estresse pode provocar
a queda de cabelos?
Queda de cabelos difusa é uma das queixas
mais freqüentes em consultórios de dermatologia. Entre
as mulheres gera muita apreensão por medo de ficarem calvas.
Existem muitas causas de queda difusa de cabelos, chamada eflúvio
telógeno pelo fato de os cabelos se apresentarem na fase
telógena, ou de recesso, do ciclo normal de funcionamento
do folículo piloso. No sexo masculino, certamente a mais
comum é a calvície hereditária. No sexo feminino,
somente 5% dos casos são devidos ao gene da calvície,
que afeta separadamente os dois sexos.
Quando uma mulher sofre de calvície, o gene vem de outra
mulher na família, ou seja, o fato de ter pai ou avô
calvos não tem relação com a calvície
de alguma mulher. Em ambos os sexos, a calvície se manifesta
precocemente, surgindo os primeiros sinais antes dos 20 anos.
Outras razões para a queda de cabelos são oleosidade
e caspa do couro cabeludo, distúrbios endócrinos,
doenças febris ou depauperantes, tratamento com medicamentos
que possam influir no ciclo de crescimento dos cabelos, como os
corticosteróides e os citostáticos, aplicação
de tinturas ou cosméticos nos cabelos, período pós-parto
ou cistos ovarianos produtores de hormônio masculino nas mulheres,
regimes para emagrecimento sem equilíbrio de macro e micronutrientes
e deficiências nutricionais por dieta viciosa, como a alimentação
de muitos jovens, que contém excesso de gorduras, carboidratos
e proteínas e falta de vitaminas e sais minerais.
Como um número excessivo de pessoas se declara "muito
estressada", muito comum é a pergunta sobre se o estresse
pode causar queda de cabelos. Essa é uma idéia muito
veiculada e muita gente acredita nela. São inúmeros
os pacientes, predominantemente do sexo feminino, que relacionam
a queda de cabelos, que os leva à consulta, ao fato de estarem,
ou terem atravessado, período de elevada tensão emocional
por concursos, estudos de final de ano, dificuldades financeiras,
exigências excessivas no trabalho, problemas afetivos ou familiares.
Isso sempre foi tido como verdadeiro pelas evidências clínicas,
embora não houvessem provas de fenômeno orgânico
capaz de realmente afetar os cabelos a partir de pensamentos ou
emoções.
Experiência
Uma experiência realizada na Escola de Medicina Charité,
de Berlim, pela pesquisadora Petra Clara Arck, lança luz
sobre o assunto. O trabalho, publicado pelo American Journal of
Pathology, em março de 2003, utilizou fêmeas de ratos
de 6 a 8 semanas de idade.
Essas ratas, nessa idade, demonstram a mais confiável e
profunda resposta ao estresse e estão na fase de recesso
do ciclo dos folículos pilosos (fase telógena). As
ratas foram expostas a estresse gerado por ultra-som na freqüência
de 300 hertz em intervalos de 15 segundos durante 24 horas, iniciando-se
no 14º. dia após terem o dorso depilado para estimular
a fase catágena, que é a fase de crescimento dos pêlos.
Os experimentadores relacionaram os seguintes fatos observados
nos pêlos das ratas: 1) término prematuro da duração
normal do crescimento dos pêlos; 2) alterações
das células que produzem o pêlo, que é o componente
epitelial mais sensível a agressões do folículo
piloso; 3) reações inflamatórias no bulbo do
pêlo, o que reflete uma ativação da imunidade
contra o mesmo.
Eles demonstraram, também, que esses efeitos inibidores
do crescimento dos pêlos podem ser reproduzidos pela aplicação,
em ratas não estressadas, de uma substância responsável
por controlar respostas do organismo ao estresse. Por outro lado,
essas respostas puderam ser neutralizadas pela administração
de um "antídoto" desta substância.
Primeira comprovação
Esse trabalho constitui a primeira comprovação experimental
de que o estresse psico-emocional tem influência efetiva sobre
o ciclo de atividade do folículo piloso e realmente pode
causar queda de cabelos.
Isso justifica a utilização, em conjunto com a administração
de produtos fortalecedores dos cabelos e bloqueadores da queda,
de medidas anti-estresse no tratamento da queda difusa de cabelos,
quando podem ser excluídas causas orgânicas e esteja
presente um perceptível estado de estresse psicossocial.
Todos os recursos neutralizadores dos efeitos do estresse têm
validade, como medicamentos calmantes, ansiolíticos, práticas
mente-corpo, como relaxamento muscular, respiração
profunda, meditação, auto-hipnose e visualização,
e técnicas orientais, como yoga e tai chi. Tudo o que concorrer
para mudar o estado bioquímico do organismo e para a liberação
de endorfinas e substâncias de relaxamento, deve ser colocado
em prática.
Abre-se, desse modo, um caminho para evidenciar que a alopecia
areata, conhecida como pelada, também recebe influência
do estresse, como se acredita há muito tempo. Essa queda
de cabelos se manifesta por áreas isoladas, redondas, sem
cabelos, freqüentemente primeiro percebidas pelo barbeiro ou
pela cabeleireira. Se for confirmada a existência de um eixo
cérebro-folículo piloso, restará desvendar
por que e como se dá a caprichosa característica clínica
da pelada.
Saiba mais sobre a calvície
e seu tratamento,
calvície feminina e sobre alopecia
areata.
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Colaboração:
Dr. Roberto Azambuja - Dermatologista |