Compulsão
e Pele
A alteração cutânea
que tem ligação mais óbvia com processos mentais é a escoriação psicogênica.
Trata-se de um quadro clínico composto por arranhões, feridas e crostas, que
são provocados geralmente em áreas extensas da pele. O rosto, as mãos, os membros
superiores e inferiores podem ser afetados. É característica do quadro permanecer
o centro das costas sem lesões, porque não é alcançado pelas mãos com facilidade.
Não é realmente uma
doença de pele, mas um estado criado pela pessoa, que a agride para liberar
uma tensão que esteja vivenciando no momento. O fato mais notável neste quadro
é que o paciente tem consciência de que está lesionando a pele, mas não consegue
conter os movimentos, que vão gerar as escoriações e feridas.
Isso indica uma compulsão,
isto é, um ato repetitivo praticado conscientemente e sem possibilidade de cessação
pela vontade da pessoa.
Sintomas
As lesões são produzidas
somente com as mãos, sem uso de nenhum objeto. São o equivalente de outros atos
compulsivos, como roer as unhas, morder a mucosa dos lábios, arrancar cabelos,
sobrancelhas ou cílios ou retirar a cutícula das unhas ou a pele das dobras
periungueais (ao redor das unhas).
Geralmente os pacientes
sentem coceira e, por isso, coçam-se violentamente. Às vezes, a coceira ocorre
durante o sono e a pele é escoriada enquanto a pessoa dorme.
Muitas vezes, porém,
não há coceira. A lesão é iniciada pela necessidade da pessoa de retirar pequenas
alterações da pele ou pedaços de descamação cutânea, desencadeando-se o impulso
de ferir a pele para o qual ela não tem explicação plausível.
Alteração
mental
De certo modo, todas
as pessoas fazem coisas semelhantes em momentos de tensão, como quando precisam
concentrar-se numa tarefa, antes de uma prova ou entrevista, quando estão preocupadas
com algo ou outras situações geradoras de estresse.
Nesses momentos, esfregam
as mãos, coçam a cabeça, colocam a mão no rosto, batem com os dedos na mesa,
contraem ou mordem os lábios, balançam uma perna. São atos que servem para eliminar
a energia do estresse, mas não provocam alterações na pele e cessam assim que
o estado interno é aliviado.
As pessoas com escoriações
psicogênicas, porém, têm sempre algum distúrbio mental concomitante. Os mais
freqüentes são depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade crônica
e hipocondria. Às vezes, pode ser a pressão de fatores psicossociais ligados
à família ou ao trabalho, que gera alto nível de estresse.
Essa relação foi demonstrada
pelo psiquiatra turco Celal Çalikusu e seus colaboradores em artigo publicado
na revista Comprehensive Psychiatry, de maio/junho de 2003. Ele comparou 31
pacientes com escoriações psicogênicas com 31 pacientes com uma manifestação
alérgica, a urticária, que serviram de grupo-controle.
Verificou que, no grupo
com escoriações psicogênicas, a depressão foi o diagnóstico psiquiátrico associado
mais freqüente (58% contra 6% no grupo-controle), seguido de transtorno obsessivo-compulsivo
(45% no grupo com escoriações contra 9% no grupo-controle).
Além disso, a alta freqüência
da depressão nos pacientes com escoriações psicogênicas sugeriu que a depressão
não é apenas um sintoma associado, mas o estado clínico primário.
Tratamento
O tratamento exige o
emprego de medicamentos antidepressivos e, ao mesmo tempo, psicoterapia comportamental.
Esta tem a finalidade de levar o paciente a reconhecer a rotina do desencadeamento
das crises e a criar comportamentos que evitem a auto-agressão.
À medida que a pessoa
se torna consciente do que ocorre na sua mente, que conduz à cadeia de movimentos
compulsivos, ela poderá talvez interferir no evento mental que dá origem
ao problema e modificar o resultado final.
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Colaboração:
Dr. Roberto Azambuja - Dermatologista |