A psicobiologia da
dermatite atópica
Quadro dermatológico extremamente incômodo para o
paciente e para a família é a dermatite atópica.
Trata-se de um tipo de eczema, que surge geralmente aos dois ou
três meses de idade com uma distribuição generalizada,
tornando-se, no seu desenvolvimento típico, circunscrito
a poucas áreas na criança maior. Casos há em
que o acometimento geral da pele se prolonga pela vida adulta. A
característica maior desta doença é a coceira
intensa que provoca, levando a criança a buscar alívio,
quando deitada, esfregando-se nos lençóis.
A doença se inicia por um aspecto avermelhado e ressecado
da pele. A seguir, aparecem escoriações, provocadas
pelo ato de coçar, pápulas e pequenas bolhas, que
geram exsudação. As alterações afetam
as faces do rosto e a fronte, o pescoço e as dobras e, às
vezes, grandes extensões da pele. A evolução
se dá por períodos de exacerbação entremeados
com fases de diminuição ou desaparecimento das lesões
num curso crônico.
Geralmente, aos dois ou três anos, a criança tem alterações
restritas à dobra dos cotovelos e à região
atrás dos joelhos que, em fases de regressão, apresentam
coloração esbranquiçada e aspecto ressecado.
Cerca de metade dos pacientes pode ficar livre da doença
entre os 10 e os 15 anos de idade.
Origem
A dermatite atópica é uma doença alérgica,
que pode ocorrer isoladamente ou em concomitância com outros
quadros alérgicos, como asma, rinite, urticária. Das
crianças que se curam após os 10 anos, muitas desenvolvem
uma ou mais dessas outras doenças, como se permanecesse o
estado alérgico com outro tipo de manifestação.
As crianças com dermatite atópica produzem anticorpos
do tipo IgE, desencadeados por ação de antígenos
de variadas origens, principalmente antígenos ambientais.
A pele tende ao ressecamento e é muito sensível a
contato com produtos químicos, especialmente sabões,
que aumentam o ressecamento e a sensibilidade. Com muita facilidade,
a pele do atópico é infectada pelo estafilococo dourado,
fato que concorre para manter e agravar o quadro clínico.
No processo inflamatório típico estão presentes
diversos mensageiros químicos, liberados por terminações
nervosas ou produzidos por células imunitárias. Além
disso, há uma marcada influência dos estados emocionais
e a própria dermatite condiciona certos aspectos da personalidade
pelas dificuldades que causa aos pacientes.
Influência psico-emocional
Fatores neuropsíquicos sempre foram associados ao curso
da dermatite atópica, como revela o nome neurodermatite,
usado no século XIX. Atualmente, a psiconeuroimunologia vem
trazendo à luz alguns dos caminhos seguidos pelos estímulos
psíquicos para influenciar o desenvolvimento da doença.
Emiliano Panconesi e Giuseppe Hautmann, em artigo publicado em
Dermatologic Clinics, em 1996, sugerem que um estado psicoemocional
excitado atua sobre fatores genéticos predisponentes, como
defeito no sistema do linfócito T, deficiência transitória
de IgA secretora e resposta anormal de receptores de membrana. Isso
causa aumento da imunoglobulina E e da liberação de
mediadores por mastócitos, deficiência da imunidade
mediada por células, resposta vasomotora cutânea anormal
e deficiência quimiotática, de onde se origina a sensação
de prurido. Daí, pela coçadura, surge a lesão
cutânea.
Em todo esse processo há a participação de
neuropeptídios, que são as moléculas mensageiras
do cérebro. O dermatologista e imunologista Hermênio
Cavalcanti Lima, em Tópicos em Imunodermatologia Clínica
(2004), citando estudo em que crianças com dermatite atópica
foram submetidas a tensão e observada a ação
desse fator psicoemocional sobre o cortisol, relata que os investigadores
sugeriram que crianças com a doença podem ser mais
suscetíveis a erupção da pele motivada pela
tensão por causa de uma baixa capacidade de resposta do eixo
hipotálamo-hipófise-supra-renal. Essa deficiência
bloquearia a competência natural do corpo para produzir cortisol
e suprimir a inflamação, o que conduz à exacerbação
da dermatite.
Por outro lado, o paciente com dermatite atópica adquire
certos traços de personalidade decorrentes do incômodo
constante causado pela inflamação da pele e pela coceira
intensa. Ele é descrito como irritável, exigente e
infeliz; precisa de muito mais carícias e contato físico
do que a média das crianças.
Se a dermatite persistir até a adultez pode gerar um indivíduo
tenso, inseguro, agressivo, com sentimentos de inferioridade e inadequação,
instabilidade emocional, hipersensibilidade afetiva e outros traços,
que demandariam uma psicoterapia, porquanto o estresse originado
desses aspectos emocionais realimenta o quadro clínico.
A influência dos familiares
Na infância, há ainda o problema dos familiares. Estes
tendem a considerar o atópico uma pessoa com deficiência
e dão exagerada atenção a sua condição
cutânea, muitas vezes superportegendo-o ou criando-lhe incapacidades
e falta de confiança. Os pais e parentes próximos
devem ser orientados a não estimular atitudes de dependência
para não facilitar a criação de condições
para manipulação dos outros pela criança.
É preciso dar o cuidado devido ao problema, aplicar os medicamentos
com carinho e delicadeza e sugestionar a criança sobre seu
poder de controlar certa parte da alteração de sua
pele sabendo que, com o passar do tempo, é grande a probabilidade
de melhora, podendo mesmo o paciente ficar livre da dermatite.
Saiba mais sobre a
dermatite atópica.
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Colaboração:
Dr. Roberto Azambuja - Dermatologista |