Tocar faz a diferença
A pele é o órgão de transformação
de estímulos físicos em comunicadores químicos
e em estados psicológicos. Em qualquer época da vida,
um contato terno e amoroso na pele produz a sensação
de apoio, consolo, companhia e presença amiga; um contato
rude e agressivo faz a pessoa sentir-se rejeitada, desprezada, invadida
e provoca-lhe reação de defesa ou raiva.
Portanto, a pele, além de órgão envoltório
do organismo, com múltiplas funções de proteção
e equilíbrio, informa o sistema nervoso permanentemente sobre
o que se passa no ambiente e gera imagens mentais, emoções
e sentimentos o tempo todo.
Todo estímulo que ela recebe origina algum estado interior.
E isso não se limita ao óbvio, como temperatura, tato
e pressão, para os quais existem receptores nervosos na estrutura
da pele. Mesmo ondas sonoras são percebidas; qualquer tipo
de som é captado não só pelos ouvidos, mas
por todo o corpo. O musicoterapeuta Stephen Halpern conta, no livro
Som Saúde, que duas pessoas surdas foram levadas a uma boate
por um amigo e, apesar de não possuírem audição,
depois de certo tempo decidiram sair daquele local, porque estavam
sentindo dores no corpo provocadas pelo som elevado.
Tratamento pela pele
A possibilidade de ações terapêuticas pela
pele é reconhecida pelos recursos do toque, da massagem e
da acupunctura. A atitude curativa mais simples é a colocação
das mãos sobre locais que sofreram ferimentos ou agressões.
Todas as pessoas fazem isso intuitivamente e efetivamente deve ocorrer
alguma influência invisível, de caráter puramente
energético ou outro, não conhecido, porque a dor é
atenuada instantaneamente e a cura é facilitada.
Quem sofrer um traumatismo em alguma área da pele sentirá
a dor esvanecer-se de maneira incrível apenas por colocar
a mão no local atingido e a manter ali por alguns segundos
ou minutos. A técnica do toque terapêutico se baseia
nesse princípio mágico do contato das mãos
com as áreas a serem tratadas e dirigido pela intenção
da cura.
A ciência não é capaz, até o momento,
de demonstrar o que se passa; a experiência, entretanto, mostra
que o fenômeno é real. Como tudo na ciência,
o que não é comprovável hoje sê-lo-á
um dia por meios de pesquisa que não existem agora e que
os pesquisadores ainda vão inventar.
Todas as pessoas, que já tenham passado por uma sessão
de massagem, sabem que aqueles estímulos produzem relaxamento
muscular, cura de certas dores, correção de algumas
posturas, revitalização da pele e sensação
de bem-estar. Os mensageiros químicos ativados pela estimulação
dos receptores na superfície cutânea levam ao cérebro
a percepção do contato ativador, relaxante ou curativo
da massagem e produzem os efeitos gerais no organismo.
A acupuntura funciona de modo ainda não claramente explicado,
mas é reconhecido pela medicina ocidental que a colocação
de agulhas em pontos específicos da pele tem o poder de aliviar
dores, produzir anestesia e curar certos distúrbios. O método
rolfing, criado por Ida Rolf, tem resultados surpreendentes, em
casos de contraturas musculares e em outros estados patológicos,
pela estimulação das aponeuroses (estruturas que envolvem
os músculos) através da pele.
A couraça muscular
Fato impressionante, porém, é o endurecimento que
as pessoas sofrem através da vida, o qual torna sua pele
quase insensível aos estímulos físicos. Primeiro,
por causa das restrições, das proibições,
das limitações, dos nãos e das manipulações
através do medo, da vergonha e da culpa, todos fatores geradores
de estresse e, conseqüentemente, de tensão muscular
e cutânea; depois, pela sexualização do contato
físico, também estressante, imposta por informações
viciosas passadas pelos pais, por educadores e pelas religiões.
Essas tensões, repetidas e acumuladas nas aponeuroses, nos
músculos e na pele, acabam por endurecer a tal ponto esses
tecidos que formam o que Wilhelm Reich chamou "couraça
muscular do caráter": a pessoa praticamente anestesia
sua pele e não consegue sentir o contato amoroso ou o repele
por sentir-se amedrontado por ele.
Isso causa um enorme prejuízo emocional à pessoa,
porque a necessidade de contato físico, essencial na infância,
permanece por toda a vida e faz o ser humano sentir-se vivo. E o
primeiro ambiente onde as pessoas podem aprender a tocar-se é
a família. Lamentavelmente é aí que elas aprendem
a não tocar nem ser tocadas pelos motivos mencionados.
A falta de contato físico entre as pessoas isola-as nos
seus envoltórios cutâneos e faz com que percam a percepção
do amor dos familiares e amigos, que são essenciais ao bom
funcionamento orgânico. Entre os adultos só se entende
e aceita contato físico por interesse sexual, mesmo que seja
praticado maquinalmente. Nas prisões, o pior castigo é
a solitária, onde o detido fica privado de qualquer tipo
de contato com outro ser humano.
Essa exigência básica da natureza humana faz com que
todos os indivíduos anseiem sempre por contato de qualquer
tipo, visual, auditivo ou tátil para se sentirem reconhecidos
como pessoas. Desses três tipos, o mais intenso é sem
dúvida o contato pele a pele, seja por um aperto de mão,
por uma carícia suave ou por um abraço; quando o indivíduo
está fechado para esse tipo de estímulo, um contato
agressivo ainda é menos ruim do que nada, pelo menos ele
está sendo reconhecido.
Os poucos que estão abertos ao contato espontâneo,
os que consideram o contato como natural e benéfico, têm
mais possibilidades de praticar atos tão lúdicos e
prazerosos como dançar com parceiro ou parceira e estão
mais aptos a ter atividade sexual consciente e satisfatória.
Toque e equilíbrio
Por isso é fundamental para a vida equilibrada que as pessoas
toquem as outras, aceitem ser tocadas pelas outras e toquem a si
mesmas. Para tal é preciso dessexualizar o contato físico
e tocar como simples reconhecimento do outro, para transmitir amor,
amizade e estímulo, e aceitar o mesmo da parte dos outros.
Assim também é imprescindível que a pessoa
toque a si mesma praticando a automassagem, método da medicina
chinesa, que estimula todos os órgãos através
de pontos de ativação dos meridianos, presentes na
superfície da pele. A automassagem coloca o ser humano em
contato com sua própria existência e concorre para
a formação de uma autoimagem positiva.
Portanto, o toque na pele, o contato com a superfície cutânea,
por meio do sistema constituído por terminações
nervosas, vasos, células imunitárias e comunicadores
químicos faz a diferença entre uma vida com bons relacionamentos
e uma vida de isolamento e depressão.
Mais
artigos
Colaboração:
Dr. Roberto Azambuja - Dermatologista |