Dermatoses relacionadas
ao transtorno obsessivo-compulsivo
Todas as pessoas sofrem de ansiedade em alguns momentos. Algumas
estão ansiosas o tempo todo, porque se condicionaram a reagir
ansiosamente aos fatos da vida, mesmo os mais comuns. Para dar vazão
à ansiedade e manter-se com algum equilíbrio, cada
um desenvolve um tipo de mecanismo. Pode ser roer as unhas, lamber
ou morder os lábios, esfregar as mãos, passar a mão
nos cabelos, arrumar os óculos, coçar determinada
área da pele. Esses são recursos simples e alguns
deles são transitórios. Muitas crianças roem
as unhas em determinada fase e isso desaparece naturalmente depois.
Outros recursos são superados, quando começam a incomodar
ou quando a pessoa se dá conta deles e decide cancelá-los,
o que consegue fazer com algum esforço e determinação,
algumas vezes substituindo-o por outro, menos incômodo ou
que cause menos prejuízo à estética ou ao organismo.
Outras vezes, por pressões ansiogênicas mais intensas
ou por inabilidade em enfrentar as tensões, algumas pessoas
desenvolvem atitudes mais complexas, como comprar coisas sem necessidade,
ingerir chocolate, comer sem estar com fome.
Esses escapes da ansiedade, se não forem controlados, podem
transformar-se em atos obrigatórios, vinculados a certas
situações geradoras de estresse. Então, a pessoa
não consegue mais livrar-se deles, repetindo-os persistentemente
de modo consciente, ainda que não queira fazê-los.
São conhecidos de todos os tiques nervosos e as manias. São
atitudes que ajudam a alviar a tensão interna, embora se
tornem desagradáveis e, às vezes, socialmente constrangedoras.
Na sua origem há pensamentos que a pessoa aprendeu a interpretar
como ameaçadores a sua estabilidade.
Obsessões e compulsões
Entretanto, certas pessoas desenvolvem um tipo de pensamento, de
imagens ou de impulsos persistente, que desencadeia ansiedade. São
pensamentos obsessivos, que se referem a qualquer fato real ou imaginário.
Os mais comuns são sobre violência, contaminação,
sexo, religião e perfeição do corpo.
As pessoas vitimadas por esses pensamentos torturantes são
levadas a atos motores repetitivos, estereotipados e ritualísticos,
que se sentem compelidas a realizar para reduzir o distresse e a
ansiedade, como explicam Julia K. Warnock e Thelda Kestenbaum, dos
departamentos de psiquiatria e de medicina interna da Faculdade
de Medicina da Universidade de Oklahoma, em Tulsa (Dermatologic
Clinics, julho de 1996).
São as compulsões, que aprisionam o indivíduo
e ocupam seu tempo com atividade dispersiva e improdutiva, mas que
são utilizados para tentar anular os pensamentos e reduzir
o nível da ansiedade. As compulsões são inseparáveis
das obsessões. Sempre que se observa uma compulsão
é preciso buscar a obsessão da qual provém.
A compulsão é o sintoma, a idéia obsessiva
é a causa. Esse quadro é denominado transtorno obsessivo-compulsivo
(TOC) e se constitui na quarta alteração mental mais
comum, após fobias, abuso de drogas e depressão maior.
As pessoas afetadas por esse distúrbio possuem, como características
de personalidade, perfeccionismo e tendência ao julgamento,
necessidade de estar no controle, indecisão por medo de errar,
inflexibilidade, consciência exacerbada sobre o trabalho,
a moral e a ética, preocupação com pormenores,
propensão a acumular coisas e ausência de contato com
seus sentimentos, segundo Caroline Koblenzer, da Faculdadede Medicina
da Universidade da Pensilvânia (International Journal of Dermatology,
fev. 1993). Exemplo de TOC está no filme "Melhor Impossível",
com Jack Nicholson, cujo personagem tem rituais como evitar caminhar
sobre emendas de calçadas, limpeza de talheres e verificação
das fechaduras das portas.
O psiquiatra Daniel G. Amen, que trabalha com imageologia nuclear
do cérebro, localiza a origem do TOC no aumento do fluxo
sanguíneo do sistema do cíngulo, que é uma
parte do cérebro que dá às pessoas a qualidade
de flexibilidade e de mudança de foco. No TOC Juntamente
com a alteração do cíngulo, há um aumento
da atividade dos gânglios basais do cérebro, que controlam
o funcionamento descontraído do corpo; essa atividade aumentada
seria a responsável pelo estado de ansiedade, que caracteriza
o TOC (Transforme Seu Cérebro, Transforme Sua Vida, Ed. Mercuryo).
Repercussões na pele
Muitas das compulsões do TOC têm como alvo a pele
sob a forma de preocupações obsessivas. As mais comuns
são queda de cabelos e conseqüente medo da calvície,
impressão de fealdade ou de aparência desagradável,
medo de contaminação por doenças infecciosas,
preocupação com câncer de pele, sensação
de estar infestado por parasitos, medo de SIDA/AIDS, rejeição
a cicatrizes de acne.
Esses pensamentos geram tremenda ansiedade, que, para ser aliviada,
é transformada em atos compulsivos. Assim, ocorrem ferimentos
da pele por expressão de lesões de acne ou por sensação
de coceira na pele acneica. É o quadro conhecido como
acne escoriada.
Algumas pessoas têm a tensão desviada para alguma
parte da pele, que tenha sofrido qualquer tipo de inflamação,
como micose ou dermatite de contato. Esse local passa a ser, insensivelmente,
o ponto de conversão das preocupações e tensões
daí para a frente, sendo coçado e atritado automaticamente
sempre que há aumento de tensão. Em conseqüência,
a pele se engrossa e escurece e forma-se a alteração
chamada neurodermite.
Outras vezes, a impressão de coceira é espalhada
pela pele e o indivíduo não só coça
como atrita e arranca partes da pele, formando feridas lineares
ou circulares no quadro clínico das escoriações
psicogênicas. Em outros, a tensão é
dirigida para cabelos e pelos. Sempre que a pessoa necessita de
concentração ou está estressada, passa a puxar
e arrancar cabelos ou pêlos das sobrancelhas, às vezes
os cílios, ou pêlos de qualquer outra parte da pele.
É a chamada tricotilomania, de certo modo
comum em crianças não só por motivos tensionais
como também por distração. Há crianças
que, para dormir, ficam enrolando o cabelo de determinada parte
da cabeça. Com o tempo, esse movimento ou arranca os cabelos
ou os enfraquece, o que tem o mesmo resultado. Surge uma clareira
no meio dos cabelos, que pode atigir uma grande área, simulando
até uma calva.
Mais comum, principalmente na infância, é a roeção
de unhas ou onicotilomania. Geralmente, isso cessa
ainda na infância. Outras vezes, prossegue pela vida em fora,
causando muito desprazer à pessoa, que, apesar de seu desagrado
pelo resultado do ato, não consegue se livrar dessa compulsão,
porque ela é a maneira aprendida de aliviar as tensões.
Freqüente, hoje em dia, por causa do padrão de beleza
imposto pelos meios de comunicação, é o distúrbio
dismórfico corporal, que é a preocupação
obsessiva com a aparência do corpo ou de determinada parte
do corpo. Cabelos finos ou encaracolados ou lisos, nariz afilado,
grande, pequeno ou adunco, brancura da pele e mania de obter cor
bronzeada, excesso ou deficiência de peso, pernas finas ou
grossas, pés e mãos grandes, aspecto dos órgãos
genitais, tudo pode ser objeto de idéias obsessivas. Este
problema leva as pessoas a isolamento e, muitas vezes, a ficar sem
ajuda médica por desinteresse de dermatologistas, cirurgiões
plásticos ou psiquiatras.
Pode ocorrer também a idéia de exalar odor repugnante,
o que leva o indivíduo a banhar-se várias vezes por
dia. Ocorre muito dermatite por ressecamento e irritação
das mãos por lavagens repetidas, motivadas pela idéia
de livrar-se de micróbios, que contaminam as mãos
ao contato com qualquer coisa ou pessoa.
Existem comportamentos auto-agressivos, que terminam na provocação
de lesões graves na pele, ainda que sem intenção
de matar-se. Em outros casos, as lesões causadas são
de menor intensidade, como as observadas em pessoas que mordem e
arrancam a semimucosa dos lábios ou que atritam repetidamente
alguma unha e geram o aspecto da distrofia mediana da unha.
Os atos compulsivos abrangem uma variedade muito grande e de diversas
intensidades. Praticamente todas as pessoas têm pelo menos
algum traço de obsessividade-compulsividade, não obrigatoriamente
dirigido contra a pele. Basta lembrar que a necessidade imperiosa
de comprar coisas, distúrbios alimentares, fixação
em doenças e dores crônicas, exibicionismo, cleptomania,
ciúmes doentios, tendência a oposição
sistemática, verificação repetida de janelas
e portas antes de dormir, colocação de coisas em ordem
específica, ligar a televisão assim que entra em casa,
mesmo que não vá assistir a nenhum programa, e muitos
outros atos que as pessoas se sentem compelidas a realizar são
manifestações do espectro obsessivo-compulsivo.
Tratamento
O tratamento de dermatoses relacionadas ao TOC exige duas intervenções:
1) a medicamentosa, na qual são utilizadas substâncias
que vão regularizar os sistemas do cíngulo e dos gânglios
basais; 2) a psicoterapêutica, na qual a pessoa vai aprender
a dominar pensamentos insistentes, a superar os medos e a treinar
o cérebro em nova maneira de funcionar por mudanças
comportamentais.
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Colaboração:
Dr. Roberto Azambuja - Dermatologista |